Patrimônio: Comprada para ser demolida, casa de 80 anos é restaurada e volta a respirar no centro de Campo Grande
No coração de Campo Grande, na Rua Padre João Crippa, número 1739, uma casa que esteve a um passo da demolição renasceu após um cuidadoso processo de restauro. Com aproximadamente 80 anos de história, o imóvel — agora adaptado para locação e uso empresarial sustentável — é um exemplo emblemático de como a Zona Especial de Interesse Cultural (ZEIC II) pode proteger o patrimônio urbano e permitir sua atualização para os tempos atuais.
A arquiteta responsável pelo projeto, Thathyane Sangali, contou que a casa foi adquirida com a intenção inicial de ser demolida, como tantas outras no centro da cidade. No entanto, ao descobrir que se tratava de uma edificação catalogada como ZEIC, o proprietário decidiu procurar alternativas.
“Sugeri que ele restaurasse a casa e a colocasse para locação. Brinquei que a gente podia ganhar dinheiro com o imóvel, quando geralmente o pensamento é o contrário”, relatou.
A obra durou seis meses e revelou verdadeiros tesouros históricos. Durante as pesquisas, Thathyane descobriu moradores antigos, histórias orais sobre a disposição original da casa — com banheiro e cozinha externos — e elementos arquitetônicos raros.
Entre eles, ladrilhos hidráulicos originais assentados sobre colchão de areia e rodapés com desenhos únicos, sem paralelos encontrados em outros imóveis da cidade. Outro destaque foi o uso de argamassa histórica, feita de cal e areia, que contribui para a ventilação e controle da umidade.
“A casa está em um terreno úmido e abaixo do nível da rua. A argamassa de cal, que é cheia de poros microscópicos, permite a evaporação da umidade. Isso é essencial para manter o ambiente seco e saudável”, explicou a arquiteta.
A fachada, por sua vez, foi mantida com suas características originais, respeitando a estética da época e contribuindo para a paisagem cultural do Centro. Mais do que restaurada, a casa foi modernizada. O imóvel agora está equipado com estrutura para carregamento de veículos elétricos e preparado para atividades empresariais que exigem eficiência energética.
“Conseguimos unir o antigo e o novo. Preservamos a história, mas trouxemos soluções sustentáveis e tecnológicas”, completou Thathyane.
A Promotora de Justiça Luz Marina Borges Maciel, da 26ª Promotoria de Justiça de Campo Grande, reforça a importância de iniciativas como essa: “Na promotoria tramitam diversos inquéritos civis sobre demolições de imóveis protegidos. Cada casa preservada representa uma vitória contra o apagamento da memória da cidade. Quando vemos uma edificação quase centenária restaurada e voltando a ter vida, percebemos que a ZEIC cumpre seu papel”.
Tudo isso é também um desdobramento direto do Catálogo Redescobrindo a Paisagem Cultural de Campo Grande, lançado pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), que mapeia 294 imóveis da ZEIC II em Campo Grande.
O material, inédito e técnico, tem orientado ações de preservação, responsabilização e fomento à valorização da memória urbana. O catálogo está disponível ao público e pode ser acessado AQUI.
“Esse catálogo foi um divisor de águas. Ele reúne informações técnicas, fotos e localização de 294 imóveis protegidos. Com ele, conseguimos fiscalizar melhor, orientar proprietários e fundamentar nossas ações judiciais. Está disponível para toda a população”, pontua a Promotora.
A casa da Rua Padre João Crippa é o imóvel de número 132 do catálogo. Infelizmente, nem todos os imóveis têm o mesmo destino. Na Rua Vasconcelos Fernandes, número 683 — o imóvel de número 285 do catálogo da ZEIC II —, hoje só restam lembranças. No local, que já abrigou uma casa histórica, há apenas um terreno coberto por mato.
A restauração da casa na Rua Padre João Crippa mostra que é possível pensar o patrimônio como ativo econômico e cultural. Como bem resume Thathyane Sangali:
“Preservar não é só manter o velho como ele era. É dar a ele um novo papel, uma nova vida, incorporando sustentabilidade, tecnologia e novas possibilidades de uso. É assim que o passado segue vivo no presente”.
Antes de demolir, procure por informações. O MPMS, junto com a sociedade, quer construir uma cidade que valorize sua história. (Por: Danielle Valentim – Revisão: Fabrício Judson – Fotos: Decom/MPMS)




